Ana Elisa Moreira Ferreira , Reginaldo R. Fujita
Definida no Pró-Consenso Nacional (2001) como "a forma de comunicação oral utilizada por indivíduos que dela dependem para sua atividade ocupacional" (Vox Brasilis, agosto/2001) a voz profissional tem sido alvo de preocupação dos otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e professores de canto. É importante compreendermos que são profissionais da voz aqueles cuja demanda é maior se comparados com outros e o comportamento vocal exigido necessita especificidades que devem ser conhecidas, avaliadas e orientadas pelos profissionais da saúde. É necessário, portanto, que se entenda a avaliação do profissional da voz como um procedimento que vai além da prática clínica rotineira, não se restringindo aos instrumentos e análises aplicados ao paciente disfônico. Dependendo da voz como instrumento de trabalho, esses profissionais necessitam do nosso olhar diferenciado dos demais pacientes.
EQUIPE MULTIDISCIPLINAR
Avaliar o profissional da voz não é apenas avaliar as características da disfonia apresentada, mas o desempenho do comportamento vocal não profissional e profissional, e este último no que tange estilo e performance. Neste sentido é necessária a participação de uma equipe interprofissional e integrada, especializada e conhecedora das especificidades vocais do profissional em questão. O otorrinolaringologista e o fonoaudiólogo, compondo a equipe de base nos casos de disfonia em voz profissional, têm seus laudos e condutas complementados por outros parceiros dependendo do profissional da voz em questão. Os pareceres dos diretores de cena, professores de canto e de interpretação, preparadores vocais e/ou maestros são imprescindíveis quando avaliamos um profissional da voz artística (locutor, ator, cantor e, entre esses últimos, principalmente em se tratando do canto clássico). No telemarketing, a pressão ambiental negativa, as exigências constantes da gestão administrativa, o cumprimento de metas e as condições ambientais adversas, configuram situações que exigem nossa atuação conjunta com psicólogos, ergonomistas, engenheiros, gerentes e médicos do trabalho, nos auxiliando na compreensão dos fatores de risco relacionados à voz.
AVALIAÇÃO OTORRINOLARINGOLÓGICA
Cabe ao otorrinolaringologista a avaliação do órgão de trabalho do profissional da voz, a laringe, e suas estruturas vizinhas que possam estar comprometendo, de alguma forma, o desempenho vocal. Problemas como processos alérgicos, pulmonares, gástricos, medicações que desidratam a laringe e o muco ou impedem o turn-over celular (anti-hipertensivos, quimioterapicos, diuréticos), devem ser inquiridos e avaliados. O exame otorrinolaringológico completo e a video-laringoscopia, de preferência com estroboscopia, devem ser meticulosamente realizados e, se possível registrados em arquivo, com especial atenção ao estado de hidratação do paciente, pois muco espesso, desidratação de mucosa podem mascarar alterações estruturais da mucosa de cobertura. Deve ser feita a entrega do exame gravado ao paciente e todo diagnóstico deve ser bem explicado sem, porém, definir aptidão ao trabalho (parecer que cabe ao médico do trabalho). A orientação terapêutica em casos de disfonia e a definição do melhor tratamento médico são de competência do Otorrinolaringologista (lei promulgada pelo CFM).
AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA
O fonoaudiólogo é responsável pela avaliação dos aspectos fonoaudiológicos envolvidos na comunicação oral do profissional da voz, principalmente focando na eficiência dos órgãos fonatórios e o resultado dessa função, a voz. Não está limitado à avaliação da qualidade vocal, mas é de sua responsabilidade o diagnóstico diferencial do comportamento vocal (segundo a lei 6965/81). Lembramos que a atuação não se restringe ao atendimento ao indivíduo com alterações vocais, já que a prática da fonoaudiologia junto ao profissional da voz vai além da disfonia, abraçando todos os aspectos da comunicação oral envolvidos na profissão. Para o melhor diagnóstico e emissão de um laudo eficiente, portanto, os procedimentos devem contemplar uma ampla anamnese, análise perceptivo-auditiva da qualidade vocal, parâmetros e medidas fonatórias, relação corpo-voz e postura corporal, relação da qualidade de vida e voz, análise acústica computadorizada da voz e da psicodinâmica vocal, sempre compreendendo a relação desses aspectos com a situação de trabalho, uso vocal específico da profissão e, quando presente, relação com a alteração vocal instalada. Simulados da voz profissional e avaliação in loco, são procedimento essenciais que, agregados aos anteriores, nos dão a compreensão da dinâmica vocal desses profissionais. O fonoaudiólogo está habilitado a realizar o diagnóstico da voz, traçando o perfil, competência e eficiência da qualidade vocal ocupacional, delimitando as necessidades de reabilitação do paciente.
RESPEITANDO-SE A CONDUTA PARTICULAR DOS PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS NO ATENDIMENTO AO PACIENTE PROFISSIONAL DA VOZ, O MAIS IMPORTANTE É ENTENDERMOS QUE TODAS AS AVALIAÇÕES SE INTEGRAM. É NECESSÁRIO AINDA UM RELACIONAMENTO INTERPROFISSIONAL ESTREITO, NO QUAL OS LIMITES, DEVERES, ATITUDES E OBRIGAÇÕES FIQUEM CLAROS, SEM ESQUECER JAMAIS DO BEM ESTAR DO PACIENTE.